Zico, ex-meia do Flamengo e da seleção brasileira

por Thiego Souza (twitter: @thiegosouza84) em 08 de Julho de 2011 00:00

Entrevista concedida com exclusividade ao repórter do Galáticos Online, Thiego Souza (twitter: @thiegosouzza)

Artur Antunes Coimbra, Zico, é um dos maiores ídolos da história do Flamengo e da seleção brasileira. Conquistou vários títulos na carreira, entre eles os brasileiros de 1980, 1982, 1983 e 1987, além da Libertadores e Mundial de Clubes em 1981, todos pelo Flamengo.

Pela seleção brasileira, atuou nas Copas de 1978, 1982 e 1986, porém não sentiu o gosto da conquista, mesmo assim ficou marcado para sempre com seus inesquecíveis gols de falta e inteligência no meio-campo.

Zico teve passagens ainda pela Udinese (Itália) e encerrou sua carreira no Kashima Antlers (Japão), onde se tornou um dos jogadores mais respeitados do país, ganhando o apelido de "Deus do Futebol". Após isso, o país passou a se profissionalizar, ganhando destaque no cenário internacional.

Atualmente é do dono do projeto Escola Zico 10, que tem como beneficiadas as crianças carentes e é um dos donos do CFZ, clube de futebol de base do Rio de Janeiro.

Olá Zico, queria que você resumisse um pouco da sua carreira para leitores do Galáticos

- Eu jogava pelada na rua, no bairro de Quintino, na zona Norte do Rio de Janeiro. Todos os finais de semana procurava sempre participar de peladas, era muito requisitado para jogar nos times das ruas de lá do bairro. Em uma dessas requisições fui para o futsal, no River, da Piedade, que tinha um campeonato interno. Fui chamado para defender o time do Santos, onde comecei a me destacar e um dia o Celso Garcia, que era da Rádio Globo, foi me ver jogar, gostou e me pediu para conhecer meus pais pois queria me levar para o Flamengo e foi o que aconteceu. Ele pediu licença ao meu pai, que aceitou e assim cheguei ao Flamengo em 1967.

Porque o apelido “Galinho de Quintino”?

- Por causa do bairro e quando comecei minha carreira no profissional eu jogava de centro-avante e fui lançado pelo Solich, onde não era a minha posição. Eu corria muito, lutava muito, com isso o Valdir Amaral me achou parecido com um galinho e por ser de Quintino me deu o apelido de “Galinho de Quintino”.

Você teve vários treinadores na carreira, mas um marcou sua carreira que foi o Freitas Solich. O que ele representa para você?

- Ele foi o cara que me teve a confiança de aos 18 anos me colocar para jogar no time principal. Ele era um treinador que gostava muito de lançar jovens, tinha tido muito sucesso com o Dida em 1955, quando o lançou em uma final e o Dida fez os gols, ficou muito marcado com isso, além de outros jovens que ele lançou.

Na última passagem dele pelo Flamengo o time não ia bem e ele me lançou no time principal, mas é lógico que tenho uma ótima recordação, porém não posso esquecer quem trabalhou comigo na base como o Zé Nogueira na escolinha, o Célio de Souza, o Joubert, que praticamente foi o treinador que eu aprimorei toda minha técnica, fundamentos de futebol. Ele me deu confiança, ele que me efetivou como titular no Flamengo, no profissional de 1974, então sem dúvidas em termo de Flamengo estes foram os mais marcantes.


Qual o sentimento de um flamenguista, como você é, ser reconhecido como o maior ídolo do time do coração?

- Eu tenho uma satisfação grande, como torcedor do Flamengo, ter participado e ter ajudado nas maiores conquistas do clube. É lógico que essa intimidade, essa empatia com a torcida foi muito importante porque eu sempre me senti como um torcedor do Flamengo. Então quando eu fazia as coisas dentro do campo eu fazia por amor ao clube e pela torcida e como um torcedor também, então isso me ajudou bastante, tive uma vantagem muito grande.

Só para dar como exemplo, na minha época de torcedor contra o Botafogo a gente só perdia, eu tinha horror ao Botafogo. Nunca consegui ver o Flamengo ganhar do Botafogo como torcedor no estádio, então quando comecei a jogar meu maior desejo era ganhar do Botafogo por isso. Eu acho que se não tivesse sido torcedor não tivesse essa gana, uma gana a mais do normal em querer ganhar do Botafogo. Então eu acho que quando você se sente torcedor também, a alegria e o prazer é dobrado.

Em seu currículo tem três Copas do Mundo, 78, 82 e 86. O que faltou para você conquistar uma delas?

- Faltou a gente ter um pouco mais de felicidade em alguns jogos. Só para citar, eu joguei três Copas e só perdi um jogo e não cheguei em nenhuma final. Tem tanta gente ai que é campeão e já perdeu um monte de jogos em Copa do Mundo e eu só perdi aquele jogo para a Itália.

Em 78 saímos invicto e em 86 perdemos nos pênaltis para a França. Então acho que estas coisas estavam escritas que não era para a gente ganhar e as coisas não saíram bem. Eu creio que em 82 nosso time se tornou um dos melhores do mundo, mas infelizmente em um dia em que não foi bem acabou sendo derrotado e acredito que seria um algo mais se tivesse a oportunidade de ganhar uma Copa do Mundo, sempre fica uma marca neste sentido, mas acho que em nada abalou minha carreira por tudo que aquilo que procurei fazer nestes anos todos.

Dos títulos que você tem, pode se dizer que o mais importante é o do Interclubes de 1981, mas teve algum que você sentiu um gosto especial por ter conquistado?

- O mundial de 81 a gente nem comemorou muito porque não teve muita emoção. Naquela época onde foi disputado no Japão, não existia futebol, não tinha torcedor do lado. Acabou o jogo, a festa foi mais aqui no Brasil. Não se comemorava como se comemora hoje.

Então eu creio, para mim no caso pessoal, o que mais me emocionou e me marcou foi a Libertadores por tudo que aconteceu naqueles jogos finais e até mesmo em toda a trajetória, confusões, todo mundo querendo para o Flamengo na base da violência, a gente procurando jogar futebol em todos os lugares e mil coisas eram feitas para a gente não chegar, mas a gente conseguiu superar isso tudo, principalmente a violência, então foi a vitória do bom futebol contra a violência, por isso que eu considero aquele segundo gol contra o Cobreloa foi um dos que mais vibrei em função justamente da importância dessa conquista.


Sua ida para a Udinese pode ser considerada um amadurecimento profissional?

- Não, mais uma experiência. Eu já estava bem maduro, tinha 30 anos, então nem esperava que pudesse vir a acontecer mais uma transferência, pois naquela época não é como hoje que você se destaca com uma seleção sub-17, sub-15 e todo mundo já quer te levar embora, então eu estava totalmente maduro, totalmente experiente e queria ter continuado no Flamengo.

Para mim em termos profissionais não acrescentou muita coisa a não ser o fato de você adquirir uma experiência internacional, jogar em um país onde naquele momento estavam os melhores jogadores do futebol mundial. É um futebol concorrente do nosso país, de muitos títulos mundiais, então foi apenas uma experiência importante em minha vida.

E o Kashima?

- O Kashima foi outra situação. O Kashima foi tudo aquilo que aconteceu comigo em relação a minha carreira de jogador eu pude transmitir lá. Eles queriam ter uma experiência profissional, queriam se profissionalizar, então meu nome foi ventilado, vieram ao Brasil e eu nem esperava que fosse jogar. Acabei ficando três anos, joguei a segunda divisão, subimos com o time para a primeira.

O time acabou se transformando hoje no maior vencedor de títulos do Japão, o maior número de vitórias, o que mais cedeu jogadores à seleção. O Kashima hoje é uma grande referência, tem um estádio maravilhoso e a gente conseguiu, com o apoio de muita gente, de outros atletas, de outros treinadores, mídia, fazer com que o Japão se transformasse uma potência na Ásia e só está faltando agora uma conquista fora de lá. Acredito que do jeito que é o futebol, como é o profissionalismo, a dedicação, disciplina, um dia eles podem chegar até em disputar a final de uma Copa do Mundo.

E agora eles conquistaram a Copa da Ásia

- Mais uma. É a quarta. Eles agora são os maiores vencedores. Depois que eu cheguei lá eles nunca haviam vencido nada, então desde 91 para cá já são quatro Copas da Ásia que eles venceram, então acho que isso mostra a força do futebol japonês nesses anos todos, desde 91, quando cheguei lá, eles se profissionalizaram em 93 e de lá em diante o Japão nunca mais deixou de participar de Copa do Mundo, já ganhou quatro Copas da Ásia e se tornou a grande força do futebol asiático, superando a Coréia, a Arábia, que era sem dúvida a mais forte e agora tem a concorrência da Austrália.

Vimos agora a sub-17, o Brasil achando que ia ser fácil, passou um sufoco, achou que 3 a 0 estava garantido, o Japão fez dois gols e quase empata o jogo. Então acho que hoje o Japão é uma grande força no futebol e fico feliz por ter dado essa contribuição toda.

Não deu um aperto no coração jogar contra o Brasil na Copa de 2006?

- É, já tinha dado na Copa das Confederações um ano antes e esperava que nunca mais fosse passar por aquilo, mas foi pior ainda passar em uma Copa do Mundo. Mas, foi uma experiência válida. O fato de estar disputando uma Copa do Mundo contra o Brasil já é uma marca grande para a seleção japonesa.


Como torcedor e como treinador, você sonha em treinar o Flamengo?

- Não, de maneira nenhuma. O Flamengo agora, se um dia eu tiver que fazer alguma coisa, só se for presidente.

Copa do Mundo 2014: Como você está vendo a movimentação do país em pró desta competição?

- Estamos bem atrasados. Eu sempre fui um defensor da Copa no Brasil por tudo aquilo que o Brasil fez dentro do campo, pelas conquistas que teve. Tivemos a oportunidade de uma vez só realizar uma Copa que foi em 50, mas pós-guerra, muitas seleções não vieram, então eu acho que dali em diante o Brasil cresceu no futebol, ganhou esta quantidade de copas (cinco) e eu acho que a gente merecia novamente vez sediar mais uma Copa.

Agora, infelizmente a gente acha que pode deixar tudo para cima da hora, a gente está com dificuldades, a gente vê aí o esforço que está sendo feito de muita gente, algumas cidades ainda não foi feito nada e o tempo vai passando. Tomara que a Copa aqui possa realmente ser uma grande Copa.

As pessoas de fora, a gente que tem oportunidade de viajar muito, elas esperam muito do Brasil porque o Brasil não é só o país do futebol, é um país turístico, que todo mundo vem com prazer, com satisfação, gosta do Brasil, então a expectativa é muito grande do pessoal que vem à Copa. Acho que o Brasil precisa ficar agora de prontidão este período todo, em todas as áreas para deixar um grande legado pós-Copa.

Recentemente você esteve em Vitória da Conquista, onde ministrou uma palestra. Fala um pouco sobre seu livro e a palestra

- O livro é um livro antigo, é um livro do meu amigo Marcos Vinicius, que está lá e ele tinha uma quantidade em estoque e como ele está morando lá me pediu se eu podia ir lá e a palestra não foi basicamente em cima do livro. A palestra foi mais para eu falar um pouco de minha história, daquilo que vivi esse tempo todo e nós tivemos um lançamento lá daquele livro, eram 400 que ele tinha. Lá como tem muitos rubro-negros a gente aproveitou e fez aquele lançamento mais para dar uma grande força. O Marcos Vinicius, amigo de muitos anos, passou por um problema difícil em Brasília, quando perdeu a filha, jovem, e teve que se transferir para lá onde mora o filho dele, aí conversando comigo a gente idealizou algumas coisas de poder fazer com ele pudesse ter um desenvolvimento na vida dele pessoal lá em Vitória da Conquista e é nessas horas que a gente tem que estar ao lado dos nossos amigos. Então teve essa possibilidade de eu ir lá, fazer o lançamento, fazer a palestra e poder ser homenageado na Câmara de Vereadores, bater um papo longo com o prefeito, então essas coisas, nessas horas que precisa estar ao lado de quem merece.

Como dirigente aqui no seu clube e até na sua carreira, qual são seus projetos para o futuro?

- Hoje estou muito voltado para o projeto das escolas Zico 10 que eu espero que possa também ser colocado lá em Vitória da Conquista. Já temos na Bahia em Anagé, Irecê, tive lá presente nestas duas cidades. Tive também em Salvador tentando lançar o projeto, mas parece que a receptividade não foi das melhores, talvez por causa de outros projetos que existam lá, cidade grande é sempre mais difícil, mas tenho rodado este Brasil inteiro.

Já são quase vinte estados que a gente tem lá. Acabei de chegar do Pará onde estamos atendendo quase cinco mil crianças em diversas cidades, então eu acho que é gratificante unir futebol e educação, porque não é simplesmente você abrir uma escolinha de futebol com o nome Zico, é preciso que tenha freqüência na escola para poder participar e também um bom rendimento com as notas, então do contrário, na terceira advertência, o menino sai, porque são meninos que tem que entender que são pessoas que estão tendo estes benefícios, não pagam absolutamente nada.

Nossas parcerias normalmente são com empresários, prefeituras, governo do Estado, empresas, e aí os beneficiados são as pessoas carentes, então se ela está beneficiada, então tem que fazer por onde e a gente só pede em troca a presença na escola e uma nota boa. O resultado tem sido excelente e espero até o final do ano poder estar com escolas em todos os estados brasileiros.

Para finalizar, deixa uma mensagem aos baianos, em especial ao torcedor do Flamengo, que tem uma das três maiores torcidas do estado.

- O torcedor baiano sempre prestigiou muito o futebol. É o estado com uma das maiores presenças de público. O torcedor baiano sempre prestigiou. É bom ter o Bahia de volta, e é uma pena que o Vitória caiu, mas deveria estar os dois lá. Tomara que agora com a Bahia sendo sede da Copa do Mundo, uma nova Fonte Nova possa aparecer, que se dê mais condições ao torcedor baiano e que ele continue prestigiando, esteja lá junto dos seus clubes porque ele gosta de futebol, prestigia futebol e o torcedor do Flamengo que acredite, que fez um esforço grande, investiu em grandes e que possa continuar dando alegrias à essa torcida.


Agradecimentos especiais ao ex-árbitro Jorge Ribeiro, que pôde proporcionar o encontro no Rio de Janeiro.



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