Até logo, Barradão!

por Paulo Victor Araújo - @pevearaujo em 11 de Setembro de 2019 22:47

O Vitória anunciou oficialmente que irá jogar por três anos na Arena Fonte Nova. A notícia foi recebida de diferentes formas pelo torcedor rubro-negro, que terá que acostumar a jogar em uma nova casa, longe do Barradão. Esse texto falará um pouco sobre a história do estádio e quais impactos causados para o clube e para os bairros próximos.

O ano era 1986, o Esporte Clube Vitória já ostentava 87 anos de história e ainda lutava contra as dificuldades para se manter como um clube profissional. A instituição assistia clubes rivais vivendo melhores fases e era constantemente ultrapassada por eles, nada melhor do que novos ares. Diretamente do bairro de Canabrava, foi inaugurado o Estádio Manoel Barradas, popularmente conhecido como Barradão. 

O complexo, que tem 32 anos de história como um patrimônio desportivo, passou a servir não só ao Vitória e aos seus torcedores, mas a todo o bairro de Canabrava e às regiões próximas. O Barradão hoje é um patrimônio cultural do bairro e da cidade de Salvador. 

A construção do estádio foi um divisor de águas da história do clube. Juntamente com o Barradão, nascia um Esporte Clube Vitória muito mais forte. A consequência disso trouxe para o bairro de Canabrava linhas de ônibus, asfaltamento, construções de casas, apartamentos, públicos grandes em dias de jogos e bares para a região. 

As conquistas refletiam em novos torcedores e moradores para o bairro. Aos poucos, o Barradão ganhava unidade com Canabrava e a gratidão dos moradores. “Essas pistas que tem aqui hoje, eram tudo sítio e criatório de boi . Aqui era uma invasão.”, afirmou Edvaldo, morador e torcedor do Esporte Clube Vitória. 

Aos 55 anos, um dos líderes da comunidade vivenciou a mudança do bairro de forma detalhada. Edvaldo viu o clube empregar e abrigar os moradores do local. “Nasci e me criei aqui, todos os moradores eram conhecidos”, disse. Como uma viagem no tempo, o torcedor não esquece os melhores momentos da história do clube e se emociona ao relatar as transformações trazidas pelo Vitória. 

“O Vitória fez a comunidade crescer. Deu movimento, trouxe pessoas para morar próximo ao estádio. Tudo que tem hoje, nunca teve. Aqui tinha pouco morador. Mas já tivemos em situações melhores, com a situação ruim do Vitória, o movimento do bairro enfraquece”, falou Edvaldo. 

Mais do que uma instituição voltada ao futebol, o Vitória tem uma função muito maior quando a bola não está rolando. A organização sem fins lucrativos representa uma mudança de paradigmas e escolheu sair do alto da sociedade para dar esperança e alento aos habitantes do local. 

O pesquisador Paulo Fernandes, em entrevista ao site Uol, classificou a mudança como um “case” mundial. "Dificilmente você vai encontrar uma reinvenção com essa densidade. Porque o Vitória nasce na aristocracia e vai se reinventar no lixo”, contou. 

Sendo um bairro de concentração de pessoas com baixa renda, o Esporte Clube Vitória contribui para a melhoria da qualidade de vida dos moradores e atua no resgate infanto-juvenil das ruas e do mundo das drogas, através de um projeto chamado Vitória Cidadania, que beneficia cerca de 400 crianças e apresenta o esporte como forma de inclusão através dos exercícios realizados dentro do complexo.

Pessoas que trabalhavam no lixão, através de coleta e reciclagem, depois da construção do estádio, ganharam novos empregos. Hoje em dia, a área é lotada de vendedores de churrasquinhos, cervejas, pequenos bares e manobristas, que viram no clube uma reinvenção, a nova forma de viver.

A lua de mel vivida entre clube, torcida, estádio e bairro perdurou por mais de 32 anos. Antes do Barradão, o Vitória possuía um total de 12 títulos profissionais, hoje, o estádio já foi palco de 17 conquistas do clube rubro-negro. Com caráter vencedor, o estádio ganhou a alcunha de ‘mágico’. 

O Esporte Clube Vitória realizou mudanças virtuosas no bairro, Canabrava viveu melhorias desde a construção do estádio, porém, existem muitas coisas que ainda necessitam de ajustes. A desigual cidade de Salvador retrata com precisão os contrastes entre lugares próximos ao bairro, entretanto, por mais que pareça, o clube não pode ser responsabilizado sozinho pela manutenção do crescimento de um local. 

O Vitória enxergou a falta de estrutura mantida pela prefeitura de Salvador e o descaso dos diversos órgãos responsáveis e agiu por conta própria. A vida de cerca de oito mil pessoas foi atingida pelo clube, seja quando ele esteve bem ou quando esteve mal.

Até logo, Barradão! 


Whatsapp

Mande um Comentário
Os comentários não representam a opinião do portal Galáticos Online. A responsabilidade é do autor da mensagem.

Ver todos

Publicidade

Fotos

Publicidade

Publicidade