Após W.O. e quebra de contrato, Figueirense manterá aposta em clube-empresa

Autor(a): Estadão Conteúdo em 02 de Dezembro de 2019 13:15
Foto: Divulgação

A classificação da temporada como histórica para um clube perto de comemorar o centenário vem de Francisco de Assis, que preside interinamente o Figueirense após a equipe passar por turbulências que colocaram em dúvida a sua sequência, mas que encerrou a participação na Série B do Campeonato Brasileiro no último sábado em festa pela improvável permanência na segunda divisão.

SUBIDA E DESCIDA

Clube ascendente no futebol nacional no século XXI, sendo finalista da Copa do Brasil em 2007 e só ficando fora do Brasileirão em três oportunidades entre 2002 e 2016, o Figueirense enfrentou um colapso em 2019.

Vivenciou greve de jogadores, com recusa a participação em treinos e, no ponto mais alto da crise, o W.O. diante do Cuiabá, em 20 de agosto, por atrasos salariais e falta de cumprimento de promessas pela gestora do clube.

"Me arrisco a dizer que o Figueirense esteve próximo do fechamento. Pode parecer exagero, mas não é, porque a situação era bem grave, de quase solvência", relembrou Assis, em entrevista ao Estado.

MUDANÇA

Afundado na lanterna do torneio nacional, o Figueirense rompeu a parceria com a Elephant, empresa responsável por administrar o departamento de futebol. E mesmo com os cofres vazios, como acusam os dirigentes do clube, conseguiu emplacar uma sequência de bons resultados que o manteve na Série B.

"Pode ser estranho comemorar a permanência, mas para nós é como se fosse um título. É emblemática essa demonstração de força e potencial", disse Assis.

CLUBE-EMPRESA

A história da transformação do Figueirense em empresa, porém, se deu bem antes, em 2015. A Elephant surgiu como alternativa em 2017, com a assinatura de contrato em agosto. Desde o início dessa parceria, porém, houve dificuldades. No fim do primeiro semestre, o clube notificou a empresa para cumprir os itens do contrato, seguido pela assinatura de termo em que a Elephant se comprometia a colocar as contas em dia. Como isso não foi cumprido, o Figueirense destituiu Honigman e a empresa, através da Justiça.

"Ele negociou jogadores com o Athletico-PR e recebeu R$ 2 milhões em uma operação que não tínhamos conhecimento. Só que os jogadores souberam, exigiram o pagamento dos atrasados, dos funcionários, da base e da comissão técnica. Tudo isso dava cerca de R$ 700 mil. Não havia razão para que o pagamento não fosse feito. Por isso, os jogadores se recusaram a jogar", afirma Assis, relembrando o W.O. contra o Cuiabá. "Foi uma queda de braço que ele perdeu. Aí entramos com o processo de rescisão do contrato."

A REAÇÃO
Aos poucos se iniciou uma recuperação que contaria com momentos tensos, a ponto de a Elephant ter protocolado documento na CBF comunicando que o Figueirense abandonaria a Série B por falta de recursos financeiros - o STJD o considerou inválido, pois a empresa já não era a gestora do futebol do clube. A torcida, comovida e preocupada, abraçou o Figueirense. Em 24 de setembro, apenas quatro dias após o rompimento com a Elephant, quase 10 mil pessoas foram ao Orlando Scarpelli e aplaudiram os jogadores mesmo com a derrota por 3 a 0 para o Bragantino. Os sete maiores públicos como mandante na Série B foram registrados após o rompimento do acordo.

Em campo, a resposta demorou um pouco a vir, como o time perdendo três jogos consecutivos. Mas ocorreu na sequência, tanto que o Figueirense emplacou uma série invicta de 12 jogos, ainda que com muitas igualdades - foram 20 em 38 rodadas. Durante esse período, retornou Pintado, treinador que havia dirigido o time em 2008. E não perdeu nesse retorno, com duas vitórias e sete empates. Também foram importantes reforços que chegaram no fim da janela de transferências, assumindo a titularidade: o goleiro Pegorari, os laterais Conrado e Luis Ricardo e os atacantes Breno e Jefferson Renan. E apoiados pelo brilho de jogadores que já estavam no elenco, como o experiente Rafael Marques, autor de três gols na reta final da Série B.

O ponto alto da reação se deu em 22 de novembro. Naquela data, ao segurar o placar em 0 a 0 com o CRB pela penúltima rodada da Série B, o Figueirense rebaixou quatro times de uma vez para a terceira divisão: Londrina, São Bento, Criciúma e Vila Nova.

O FUTURO
Os desafios, porém, não se encerram com o fim da temporada. O clube deve passar por desmanche do elenco, pois só 11 dos 36 jogadores possuem contrato para 2020. E com restrições financeiras, deve perder destaques da campanha que estavam emprestados ao time, como Pegorari, do Ituano, e Fellipe Matheus e Tony, da Ferroviária. Além disso, a diretoria ainda deve dois meses de direitos de imagem a nove atletas. "Fizemos mutirões para captar recursos com conselheiros e amigos para resolver as questões mais urgentes, como os compromissos salariais", explica Assis.

O dirigente também destaca que o Figueirense, até por seu pioneirismo, manterá a aposta no modelo de clube-empresa, acreditando que o problema se deu pelo que vê como má-fé de Honigman. "O Figueirense buscou esse modelo de gestão por acumular dificuldades financeiras que não podia suportar", diz.

Nesse sentido, a aprovação do projeto clube-empresa na última semana na Câmara dos Deputados agrada ao Figueirense, especialmente por permitir o parcelamento de débitos em até 150 meses, com a comodidade de reduzir as multas em 70% e os juros em 40%. "É algo que nos interessa, só tende a melhorar. A nossa empresa é convencional e a que está sendo proposta pela legislação é específica para o futebol, com vantagens que hoje não temos, principalmente envolvendo negociações das dívidas", afirma o presidente em exercício.

O plano do Figueirense é voltar à elite em 2021, como um marco da celebração do centenário. Na festa, 2019 terá seu espaço, por memórias positivas e negativas. "Foi um período negro, atingiu a nossa imagem", admite Assis. "Por outro lado, houve uma impressionante demonstração de força. A torcida abraçou o clube de modo inédito, com uma corrente de solidariedade e é algo a ser comemorado", conclui o dirigente.


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