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Há um porquê para limitar o futebol? 

por Leonardo Romeiro (Advogado e Torcedor) em 31 de Março de 2021 12:30

Do sofá de casa ao velho e costumeiro assento da arquibancada, o torcedor brasileiro, em razão da sintonia existente entre a própria vida e o futebol, não pensa duas vezes para apontar a quem mais próximo estiver as suas opiniões futebolísticas.

Seja em razão do incansável pedido por um jogador que iniciou no banco de reservas (a exemplo de Raudinei em 1994 e de Charles em 2007), das contundentes críticas feitas a um atleta que optou por uma escolha distinta da que ele imaginava, ou mesmo das mais profundas e – algumas vezes – acertadas análises táticas e técnicas de uma partida de futebol, não há como negar que quase todo torcedor se sente também um pouco técnico. 

Por isso não se pode entender como absurda a firmação de que dentre as mais variadas funções atreladas ao mundo empresarial do futebol, a mais difícil, e também vulnerável, é a de treinador. Por sorte, ou tão somente por força de convencimento, a opinião do torcedor reverbera em campo e na grande maioria das vezes, quando o técnico contraria a vontade da torcida e o resultado não se faz presente, o destino certeiro do profissional será a demissão. 

Viver o futebol é ter a certeza de que o estádio pulsa e tem o poder de definir os rumos de um clube, é saber que muitos técnicos cairão por desagradarem o torcedor, mas também é constatar que esse não é o único motivo para que os trabalhos em times sejam encerrados. 

Como a arquibancada, o futebol tem um mundo oculto, que também pulsa, até com muito mais poder do que os estádios, definindo rumos inexplicáveis à manutenção de um técnico.

Os motivos que levam a demissão de um treinador são diversos: divergências políticas na diretoria do clube, dificuldades no convívio com jogadores, desavenças com profissionais da imprensa, ou mesmo resultados imprevistos.

Na condição de empresa, atividade regida por princípios constitucionais como o da liberdade econômica e da livre iniciativa, poderiam os clubes, caso entendessem necessário, demitir e contratar quantos técnicos quisessem durante uma temporada. 

A prática se tornou corriqueira e passou a incomodar demasiadamente alguns setores de grande influência no futebol. Especialmente os técnicos com maior tempo de carreira e a grande mídia de cobertura futebolística, a qual, em tentativa de comparação do Brasil a países europeus, sustentava existir aos clubes nacionais falhas de gestão atreladas ao elevado número de demissões e contratações de técnicos.

Ora, mas a capacidade administrativa e gerencial não é um dos elementos para a competição entre clubes? Se não o fosse, deveriam todas as equipes trabalhar com um teto de gastos anuais, para tentar equilibrar as disparidades financeiras, o que não existe e certamente não existirá.

Por que será, torcedor, que a demissão e contratação de técnicos atormentam tantas pessoas do futebol? Por que poucos questionam os clubes que decidem montar elencos com mais de 40 jogadores e até aplaudem aqueles que montam duas equipes, a exemplo do que faz o Bahia, no primeiro semestre da temporada?

Qual a razão de não se entender como algo a ser corrigido o a quantidade de contratações feitas em um ano por um clube de futebol, mas se questionar tão incisivamente o número de técnicos contratos e demitidos pelos principais times do país?

A resposta talvez seja encontrada na nova regulamentação que limita o número de contratação de técnicos por clubes durante o Campeonato Brasileiro em 2021.
 
Com a restrição de duas contratações, devendo ser observadas as variações presentes nas “brechas jurídicas” deixadas pelo novo texto regulamentador, a CBF, sob a justificativa de que busca acabar com a “dança das cadeiras no futebol brasileiro”, constrói uma verdadeira reserva de mercado, de modo a garantir melhores termos contratuais aos técnicos já empregados, além de estabilidade, haja vista que se tornará um grande risco ao clube demitir o treinador, ainda que o seu trabalho não esteja agradando.
 
Afinal, qual gestor irá assumir a culpa de ter sido rebaixado, ou mesmo ficado de fora da Copa Libertadores da América, por exemplo, ao optar por disputar jogos sem um “técnico”?

Mais do que isso, certamente se tornará difícil o surgimento de novos treinadores, pois poucos são, como segunda opção, os jovens alçados à essa condição em grandes clubes do país. Sempre sobram a estes a terceira, quarta, quinta alternativa, como foram os casos de Rodrigo Chagas no Vitória, de Dado Cavalcanti no Bahia e até de Rogério Ceni no Flamengo.

Será, torcedor, que essa nova regulamentação da CBF visa de fato apenas à redução do número de demissões de técnicos, ou existe alguma motivação advinda do citado “mundo oculto” do futebol?

Ao fim, além da reflexão a ser respondida ao longo do campeonato, fica a esperança de que, independente do que se planeja politicamente, cada dia surjam mais Cenis, Rodrigos e Dados.

Leonardo Romeiro
Advogado, Amante do futebol e atento ao mundo oculto da bola.


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